Domingo, 12 de Março de 2006

HIPOCRISIAS

DUAS HISTÓRIAS SOBRE AS MULHERES QUE MERECEM SER CONHECIDAS:


UMA DO PASSADO:



Sabe por que existe um dia em homenagem à vocês? No dia 8 de março do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma em todo mundo. Com essa celebração pretende-se chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à vocês. Essa é a história do surgimento da comemoração desta data. Essa é a história do dia de vocês.



E OUTRA DO PRESENTE:



Desonrada
Miriam Leitão

Nunca ficou tão clara a hipocrisia das Nações Unidas quanto no caso
divulgado no último fim de semana: a ONU decidiu cancelar a
entrevista de uma paquistanesa vítima de estupro coletivo. Mukhtar
Mai estava sendo apresentada como "a mulher mais corajosa da Terra",
mas a entrevista acabou cancelada porque o primeiro-ministro do
Paquistão estava visitando a ONU e não se queria constrangê-lo.
Ela falaria na TV da ONU, mas, na véspera, a instituição mandou
informar que a entrevista ficaria para melhor oportunidade, porque
isso poderia incomodar o primeiro-ministro paquistanês, Shaukat Aziz,
em visita às Nações Unidas.


A notícia correu mundo imediatamente porque agora a jovem pobre de
uma aldeia remota do Paquistão já é uma celebridade. Mukhtar estava
indo à ONU depois de participar, em Paris, do lançamento do seu
livro "Desonrada", em que conta, no texto escrito por uma jornalista,
seu caso, dramático, repulsivo e, infelizmente, comum.

Mukhtar Mai viveu uma das mais chocantes histórias de violência
contra a mulher jamais divulgada. Ela foi condenada pela Jirga, a
corte tribal, da localidade de Meerwala, em junho de 2002, a ser
estuprada coletivamente. Seu crime? Nenhum! Seu irmão mais novo,
então com 12 anos, estaria se encontrando com uma jovem de uma tribo,
considerada de casta superior. Ofendidas, as pessoas da tal casta
exigiram, como vingança pelo suposto ataque à honra do grupo, que Mai
fosse estuprada.

Ela foi condenada pelo Conselho Tribal e estuprada sucessivamente por
quatro homens, enquanto gritava por misericórdia aos 200 homens que
testemunhavam a viol ência. Para concluir a humilhação, foi obrigada a
desfilar nua até a sua casa. Seria mais um dos milhões de estupros de
que, ainda hoje, mulheres são vítimas, seria mais um dos casos de
violência contra a mulher determinada por alegações religiosas ou
culturais, não fosse a espantosa coragem de Mai.

Recusando-se a ficar em silêncio, ela desafiou seus algozes e
enfrentou o código tribal. Foi à Justiça comum do país pedindo
punição de todos os culpados. Em 2004, eles foram condenados e ela
recebeu uma indenização. Com o dinheiro, abriu uma escola. Mai, que
na sua época nunca teve permissão para estudar, disse que quer
trabalhar para melhorar as chances da próxima geração. "A escola é o
primeiro passo para mudar o mundo. Em geral, o primeiro passo é o que
dá mais trabalho, mas é o começo do progresso", disse, segundo a BBC
News. Ela ainda enfrentou outro constrangimento: no ano passado, teve
seus direitos de locomoção reduzid os pelo governo paquistanês, sob a
alegação de que era para a sua segurança. A suspeita é de que a
intenção era silenciá-la em sua condenação ao país e à omissão do
governo.

Mai já venceu mais esta batalha, mas a ONU acabou ajudando o governo
do Paquistão. Para isso, teve que esquecer até o preâmbulo da
declaração que a criou, que diz o seguinte: "Considerando que o
desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a atos
de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento
de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer,
libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta
inspiração do Homem..."

A ONU, guardiã e defensora dessa declaração universal, decidiu que lá
Mai tem que se calar. Entre dar voz a uma vítima de grave violação
dos direitos humanos ou a mais um burocrata de ocasião, ficou com a
segunda opção.

A luta da mulher por respeito é mais dramática em alguns países, mas
é mundial. No Brasil, uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão,
feita pelo Ibope, mostrou que, entre mulheres que só estudaram até o
quarto ano do fundamental, 31% não discordavam da frase: "Ele bate,
mas ruim com ele, pior sem ele." Até entre quem tem curso superior,
foi possível encontrar 8% que aceitavam a frase.

Nesta área, os dados são imprecisos, porque muitas mulheres preferem
o silêncio, mas, segundo a Fundação Perseu Abramo, um terço das
mulheres com mais de 15 anos já foi vítima de alguma forma de
violência física. Em mais de 50% dos casos, a denúncia não é feita.
No mundo, em alguns países, a taxa de violência chega até a 69% das
mulheres.

Asma Jahangir, da Comissão de Direitos Humanos da ONU no Paquistão,
escreveu na revista "Time Asia" que, nos sete primeiros meses de
2004, nada menos que 151 mulheres paquistanesas foram estupradas da
mesma forma e 176 foram cond enadas à morte "em nome da honra". No ano
em que Mai foi violentada, foram registrados outros 804 casos de
estupros coletivos, 434 deles chegaram a ser noticiados. Os casos de
suicídio de mulheres após condenação semelhante por conselho tribal -
única justiça em grande parte da área rural do Paquistão - são tão
comuns que normalmente são registrados em notícias pequenas nos
jornais locais.

O nome e a história de Mai correram mundo e continuarão correndo nos
próximos anos. Ela virou um símbolo da luta contra a barbárie, pelos
direitos humanos, contra a violência contra a mulher. É admirada,
respeitada e apoiada. Tudo o que aconteceu a ela seria mais um caso
de abuso contra a mulher num lugar remoto, tolerado pelo mundo com a
desculpa de que essa é a cultura local ou essa é a lei religiosa, não
fosse sua determinação de não se calar.

Numa entrevista à CNN, Mai disse, numa vozinha baixa e tímida, uma
mensagem de extraor dinário poder: "Eu tenho uma mensagem para as
mulheres do mundo, todas as mulheres que foram estupradas ou foram
vítimas de violência. É preciso falar sobre o que houve, e lutar por
Justiça." Parece simples e fácil, mas para todas as vítimas de
violência sexual este é o passo mais difícil: falar sobre o crime e
expor a humilhação de que foi vítima.

Publicado em 24 de janeiro de 2006
http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/miriam.asp





Janice





---
publicado por nuno1 às 22:01
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