Domingo, 22 de Outubro de 2006

JORNALISTAS? AO SERVIÇO DE QUEM?

CARTA ABERTA A MIGUEL SOUSA TAVARES
-         Também de útil leitura aos demais Opinion Maker’s
 
 
Esta é a primeira carta que lhe dirijo.
 Se bem que a vontade não me tenha faltado em anteriores ocasiões, sempre tenho pensado que não haveria maior utilidade para o meu latim do que a descortesia de o deixar sem resposta.
Contudo, como a paciência e a condescendência têm limites – confesso que as minhas já conheceram melhores dias – e respondendo a um repto lançado por um amigo, resolvi dizer-lhe algumas coisas que o senhor há muito precisa de ouvir.
Não é que não haja quem já lhe tivesse dito algumas merecidas, felizmente, mas fica a esperança que um conjunto de vozes mais recheado o coloque no seu devido lugar, pois parece-me que anda a precisar de fazer determinadas leituras para limar algumas veleidades…convém lembrar que cada um de nós é dono da SUA verdade.
 
A forma escolhida para o efeito assenta num direito que o senhor ainda não criticou (por enquanto, segundo creio):
·        o de manifestar publicamente repúdio e indignação perante a forma demagógica, simplista e execrável com que alguns comentadores, e em particular o senhor, se arrogam o direito de abrir a boca para opinar sobre tudo e sobre todos sem, não raras vezes, saberem do que falam ou pelo menos em consciência.
 
“Por acção e omissão”, o senhor acaba por frequentemente ir aditando alguns pozinhos perniciosos a ideias não menos daninhas - que infelizmente vão grassando na sociedade, particularmente na tão cara opinião pública, a qual, umas vezes por ignorância, outras por conveniência esquece a necessidade do espírito crítico e embarca em qualquer pelota - segundo as quais os professores não trabalham, tiram férias várias vezes por ano, faltam muito e, as mais recentes – ESTÃO MUITO PREJUDICADOS PELA IMAGEM DOS SINDICATOS E QUE ESTES NÃO QUEREM A AVALIAÇÂO DOS PROFESSORES.
 
Quis o senhor com isto dizer que as reivindicações dos sindicatos não são as dos professores? E que os sindicatos receiam a avaliação do trabalho docente?
Parece-me bem que alguém como o senhor, quando fala seja lá do que for, não faça tábua rasa de determinados factos, sobretudo se forem parte integrante do assunto, só porque lhe convém (confesso que ainda não entendi o porquê) passar imagens deturpadas e pouco sérias.
 
Ao afirmar que os sindicatos prejudicam os professores, o senhor não teve certamente conhecimento que no passado dia 5 de Outubro, mais de 20 mil professores desceram a Avenida da Liberdade naquela que foi a maior manifestação DE SEMPRE de docentes portugueses e igualmente desconhecerá sobre o que protestavam.
Pois eu passo elucidá-lo:
 
         Primeiro – Os sindicatos não apontaram qualquer arma a quem quer que fosse para lá estar nem teriam poder de argumentação suficientemente forte, caso não tivessem razão, que lá levasse tanta gente.
Os professores estiveram PORQUE SABEM o que significam as propostas de alteração ao seu estatuto de carreira apresentadas pelo Ministério da Educação e TÊM CONSCIÊNCIA de que é preciso dar voz e rosto ao descontentamento que prolifera em toda e qualquer escola deste país;
        
         Segundo –Não protestavam apenas contra a rapinagem e ignomínia por parte do M. E mas contra toda uma sociedade cega que este (des)governo obcecado, qual tanque de guerra com a direcção avariada, está a impor, trocando e passo a citar o insuspeito Santana Castilho: “pessoas por estatísticas manipuladas e números falsos, e o concreto, pungente, pelo abstracto”;
 
Terceiro – Os professores são e sempre foram avaliados.
Acontece que esta senhora, perdoem-me a designação, que ocupa a cadeira na 5 de Outubro, não quer que sejamos avaliados segundo normas sérias e objectivas.
 Isso não! Pois assim muita boa gente ainda progrediria na carreira!
O que tal senhora quer é que sejamos avaliados de acordo com critérios, uns abstractos, outros autistas e disparatados, como por exemplo, as taxas de absentismo dos alunos!
Não posso deixar de citar alguém que escreveu algures mais ou menos isto: “Bem aventurados os maus professores que forem parar à Lapa e desgraçados dos bons que forem cair na Cova da Moura”
 
Quarto - O que o senhor também ignora, e passo a informá-lo, é que a provar que os sindicatos de professores ou pelo menos aquele que é O sindicato DOS professores – sim, porque o separar das águas nesta questão é imperioso - não prejudica a imagem dos seus associados, (que é também a deles, pois os dirigentes sindicais são antes de mais, professores e dão aulas, ao contrário do que diz) é o resultado da medição da representatividade sindical, aferida este ano pela primeira vez por parte do M. E e há tanto tempo por nós solicitada;
 
Não se sindicalizariam mais professores e dessindicalizar-se-iam os mais de vinte e dois mil se considerassem que eram lesados por aqueles que EFECTIVAMENTE os representam, ou não lhe parece?!
Tendo em conta que este seria um assunto que por si só requereria outra carta, disponibilizo-me desde já a enviar-lhe tal estudo se assim o desejar.
Assim como me disponibilizo a enviar-lhe uma série de testemunhos que comprovam factos que o senhor parece não conhecer, nomeadamente:
 
·        provas dos suculentos e protectores salários que auferem muitos daqueles que se pronunciam de cátedra sobre a obrigação que é diminuir os salários dos professores;
 
·        provas dos chorudos lucros que os bancos embolsam em tempos de recessão e que ficam por tributar;
 
·        provas do escandaloso aumento do fosso entre ricos e pobres;
 
·        provas de que somos dos da Europa quem menos gasta em educação;
·        provas de que docentes deste país estão longe de ser dos mais bem pagos neste continente a vinte cinco;
 
·        provas de que os professores são dos que menos faltam comparando com outros profissionais;
 
·        provas de que os professores deste país só podem tirar férias entre o final de um ano escolar e o inicio do seguinte;
 
·        provas de que em muitos aspectos a educação, escolas e alunos continuam a viver do voluntarismo e boa vontade de muitos professores e não das politi(quices)cas do M.E;
 
 
·        PROVAS DE QUE O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SABE PERFEITAMENTE QUE TEMOS RAZÃO, OU AQUELE QUE É ACTUALMENTE UM SECRETÁRIO DE ESTADO NÃO TERIA DITO A RESPEITO DAS QUOTAS PARA PROGRESSÃO NA CARREIRA, EXACTAMENTE O QUE HOJE DIZEM OS SINDICATOS
·        etc
·        etc
·        etc
 
Que bom seria que a TVI, ao invés de requisitar para opinar, pessoas como o senhor, convidasse também quem está por dentro destes assuntos, para num frente a frente falar seriamente sobre eles.
À semelhança de outros, também eu não me importaria de lá ir.
À semelhança de outros, também eu não vetaria interlocutores, como fez a senhora Ministra da Educação ao dirigente da FENPROF, Mário Nogueira, numa recente arena televisiva liderada por uma apresentadeira bem conhecida na nossa praça.
À semelhança de outros, também eu levaria para mostrar às câmaras um certo recibo de vencimento com uma ou outra particularidade: ao fim de dez anos de serviço, vários de aumentos zero e outros de congelamento, ainda traz escrito 4º escalão.
Por aqui escuso de dizer que não tenho, por exemplo, empregada de limpeza, que não me desloco num carro de luxo, que não passo férias em destinos exóticos, que não visto roupas assinadas por designers de renome, que não vou ao teatro tantas vezes quanto gostaria, que não sou frequentadora assídua do Casino de Lisboa ou da Kapital, que não vivo num luxuoso condomínio em Telheiras, no Parque das Nações ou na rua Bramcamp, que não tenho casas no Algarve nem sou cliente do Tavares Rico ou do Eleven…
 
Ah! E já quase me esquecia de dizer, caso não tenha percebido: o tal recibo de vencimento, aqui só para nós, não diga a ninguém, é o meu.
 
A Professora do 1º CEB e Dirigente do SPGL
 
publicado por nuno1 às 13:48
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