Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

cOM O MEU ACORDO

Hoje o Pedro Barroso quis falar de mim!
Conhece-me bem.
De facto, tenho as " quotas todas " em dia...
Paz à minha alma ...
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A QUADRATURA DO CIRCO
O bom cidadão
Por Pedro Barroso
O BOM CIDADÃO é um herói do Estado. Só com ele, o Estado se reforça e pode virtualmente planificar o futuro da Sociedade. Se todos ajudassem e aprendessem com este texto exemplar, cumprindo as suas obrigações de cidadãos, o futuro de todos nós seria muito melhor. E a poupança do Governo proporcionaria bem-estar e felicidade a um número mais alargado de portugueses. Infelizmente, nem todos compreendem os deveres de lealdade à Nação e desviam-se nos mais diversos detalhes e vícios de uma carreira ordeira, obediente e conforme.
O bom cidadão nasce sem incomodar demasiado o Estado, para não fazer despesas desnecessárias com fórceps ou cesarianas. Deve, pois, nascer preferencialmente numa cidade desenvolvida e litoral, onde já existam infra-estruturas integradas, para não obrigar à construção de piscinas, mercados, escolas, maternidades, pavilhões ou hospitais escusados.
Se o jovem cidadão nascer em sítios isolados, a sua escola terá decerto poucos alunos e a sua educação dará prejuízo ao Estado, por manifesto desajuste entre o excesso de mão-de-obra e a tão pouca massa discente. É sempre de evitar.
Como aluno, crescerá sem temeridades nem excessos, estudando no limite da sua inteligência, mas sem ambições estranhas nem perigosas, tais como bolsas no estrangeiro ou outros excessivos incentivos. Admite-se que o cidadão, enquanto jovem, faça desporto em estruturas já existentes, mas é recomendável que saiba conter-se em gastos, hábitos, acidentes e doenças, poupando ao Estado radiografias e Betadine.
Serão, aliás, costumes de muita utilidade para o seu futuro. A parcimónia é uma virtude.
O bom cidadão emprega-se cedo e paga os seus impostos. Cinquenta por cento do que ganhar deve ser para o Estado, para que muito justamente este lhe retribua com pontes e estradas com portagens, guichets e Repartições variadas, cujas servem justamente para nelas pagar os referidos impostos, os selos e as taxas recomendadas e exigidas pelas necessidades da Nação.
Na opinião o cidadão é moderado. Conciliador.
Poderá revelar, até, um criticismo parcial, se o exprimir de forma civilizada no exercício soberano do seu voto consciente. É o seu acto maior de intervenção cívica. Deve cultivá-lo.
O cidadão deve também compreender e acatar as regras da estrada, circular no máximo a 120 km/hora nas auto-estradas e a 50 km/hora nas localidades. Respeitar os seus superiores e as Autoridades e confiar em geral que todo o sistema montado pelo Estado serve para o proteger e ajudar.
A compacta vivência dos transportes colectivos em hora de aperto deve ser entendida como uma sempre agradável prática sensorial de aproximação e intimidade, onde poderá, até, vir a gozar de muito interessantes experiências de contacto humano, sempre enriquecedoras.
Terá direito a 25 dias de férias por ano e a férias matrimoniais, maternais e por nojo ou luto de seus entes queridos, patrocinadas pelo sempre compreensivo Patronato.
O bom cidadão não se mete em desordens, nem participa casos de Polícia, para não incomodar estruturas cívicas, como os Tribunais. Com efeito, estas instâncias estão já assoberbadas com demasiados casos, bem mais urgentes que o roubo da sua carteira ou o assalto por esticão da sua incauta avó. Os Tribunais são estruturas pesadas e dispendiosas que deve evitar-se accionar e se aplicam apenas para conflitos maiores.
Por esse motivo, o cidadão deve, desde cedo, aprender que o crime de assalto, o risco no carro ou as pequenas injustiças que sofrer no dia a dia são apenas encaráveis como impostos indirectos num Estado de Direito, e que têm de se suportar com paciência e estoicismo, pois fazem parte da vida.
O bom cidadão tem a temperança de um muito acreditar que se tornou desacreditar.
Não é, por isso, nem demasiado efusivo na celebração, nem demasiado pessimista na derrota. Entende que a vida tem altos e baixos, é preciso compreender e conformar-se com isso. O bom cidadão é, pois, sorumbático.
Compete também ao bom cidadão presenciar as cerimónias públicas e aplaudir. São eventos sempre agradáveis, tais como inaugurações de pontes e mercados, tomadas de posse, visitas ministeriais, etc., com a vantagem de serem gratuitas, frequentadas por gente influente e sempre muito instrutivas.
O cidadão correcto reclama moderadamente ao ouvir os telejornais, mas compreende os esforços de todos os governantes para o bom funcionamento da República, pelo que tolera os erros de gestão, a má prática, a assistência tardia, a bicha nos serviços, o prazo do despacho, a extinção da Maternidade, até os ordenados dos futebolistas.
Perdoa tudo, pois reclamar é sempre feio e raramente conduz ao que quer que seja.
O bom cidadão, de resto, deve ser recatado e pouco expansivo, pois os limites sonoros devem ser sempre acatados, e os excessos temperamentais podem provocar doenças graves como AVC's, picos de tensão alta, apoplexias várias, neurose, depressão, etc.
Os seguros aumentam, mas o cidadão deve pagá-los. Os impostos aumentam, mas o cidadão deve pagá-los, sem reserva. Até os lucros da Banca, as taxas de juro, os spread's e euribores e outras coisas, mesmo que não saiba exactamente o que são. Para o seu bom nome se manter, o cidadão deve pagar tudo isso atempadamente. A gasolina, as portagens, a taxa moderadora, a prestação do frigorífico, da casa, do carro. Pagar.
O bom cidadão declara tudo o que ganha, mesmo as gorjetas.
Compete ainda ao bom cidadão ajudar nos peditórios para o cancro, a lepra, a sida, a epidermite bulhosa, a tuberculose e os Bombeiros pois são, obviamente, casos imprevisíveis que, numa sociedade ideal, não existiriam e não seriam necessários.
De facto, o Estado não pode, compreensivelmente, acorrer a todos os desleixados que se deixam indevidamente apanhar pelas mais dispendiosas e graves doenças, nem é sua culpa que tenham adoecido ou que os Bombeiros queiram viaturas novas. Há, pois, que sentir solidariedade pelos seus concidadãos afectados e ajudar sempre, generosamente.
O bom funcionário é a extensão óbvia do bom cidadão.
O bom funcionário é aplicado, pontual, educado e reside na área de trabalho, para não gastar demasiada energia pública no eléctrico ou autocarro e contribuir para um bom ambiente e para a diminuição do buraco de ozono.
Alias a consciência ecológica é um dever do bom cidadão. Deve pôr os vidros no vidrão; os cartões bem limpos nos receptores de cartão; as embalagens depois de devidamente lavadas no recipiente adequado. O bom cidadão decora as cores dos eco pontos modernos e funcionais, contribuindo para uma mais rápida triagem da parte das lucrativas empresas de aproveitamento de resíduos sólidos, que, obviamente, não podem estar a perder tempo com porcarias e lixo sujo e mal encaminhado.
O cidadão exemplar mantém-se até ao limite previsto no seu posto de trabalho - mesmo que sinta alguma dificuldade em lembrar-se onde fica - e morre aos sessenta e cinco anos de idade, depois de uma vida de descontos. Isto para que a Segurança Social lucre com ele, e não tenha que o sustentar em dependências sempre egoístas e evitáveis que prejudicam o conjunto da Nação e retiram credibilidade ao sistema.
Para quê gozar de paz e reforma antecipada quando ainda se sente motivação e vontade de viajar e usar a vida? Todos sabemos que orgias e comezainas ou viagens prolongadas não são indicadas para a terceira idade.
O bom cidadão fica em casa com a sua reforma olhando a televisão, até morrer.
Com raras e discretas deslocações à farmácia mais próxima. E ao cemitério, por uma questão de aclimatação prévia.
O bom cidadão é triste, cumpridor e exemplar.
Ajude o Estado a servi-lo melhor. Morra cedo.
O Estado ama o bom cidadão.

 

 

--
Ernesto Pena
pena.ernesto@gmail.com

publicado por nuno1 às 15:03
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