Sexta-feira, 3 de Agosto de 2007

Sócrates, o ditador

Magistralmente explicado por António Barreto, o perfil ditatorial do
actual Primeiro-Ministro.

Sócrates o ditador

por  António Barreto


A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada
de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os
resultados é que contam.

Entre estes, está o facto de o candidato à Autarquia se ter afastado
do Governo e do Partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à
frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma
inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição
pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal.

A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas
rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém
pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição
autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas
ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado?
Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros
foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de
profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram
sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que
dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta.

Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes.
João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai
dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António
Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão.

Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto
Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César
limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena
Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido
estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um
jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual
pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática,
justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da
luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas
portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por
cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público
esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos
políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates.
Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião,
mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas
nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem
rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de
Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da
maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus
assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os
quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade
Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas
tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas
fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo.
Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico.
Irritado. Enervado.

Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam
previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber.
Deseja ter tudo quanto vive sob controlo.

Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política,
ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de
manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro
Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas
tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na
teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob
seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um
funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está
vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e
apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a
tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão
pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à
informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas
ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e
sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos
dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos,
Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e
um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como
nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos
dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o
vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É
sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De
fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela
liberdade.»










sinto-me: Envergonhadio
publicado por nuno1 às 18:20
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