Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

CANTANDO E RINDO...

Memórias de uma Professora Titular
 
 
 
>
> > Memórias de uma professora titular
> >
> > O importante é chegar a professora titular. Foi com   este
> > pensamento que
> > tracei a rigor o meu destino, há   tantos anos atrás. Filhos,
> > tê-los-ei
> > aos
> > quarenta, antes nem pensar pois quatro meses de licença de maternidade
> > lançar-me-iam irremediavelmente no nível Regular impedindo-me a tão
> > desejada progressão na carreira. E assim foi.
> >
> > Tudo me correu lindamente até ao décimo sétimo ano de leccionação. E
> > ao longo desses anos aprendi a agradar a todos, aos alunos, aos pais e
> > ao executivo da escola. Porque chegar a professora titular implicava
> > uma escolha entre outros muitos candidatos, a quem tudo tinha corrido
> > igualmente bem. Cheguei, inclusivamente, a ter alunos que passavam o
> > fim- de-semana comigo e com a minha família. E eu até lhes passava as
> > t-shirts a ferro e fazia trancinhas no cabelo das meninas. E um dia  a
> > televisão bateu-me à porta para fazer  uma reportagem, assim
> > inesperadamente. Era eu  de avental a servir-lhes a sopinha, a
> > dar-lhes conselhos e a fazer-lhes festinhas na cabeça. E o jornalista
> > até me perguntou se também lhes cantava canções de embalar e eu
> > disse-lhe logo que sim,  que até lhes lia os "Versos de fazer ó-ó" do
> > José Jorge Letria e que  depois de adormecerem aproveitava para lhes
> > ir lendo o "Memorial do Convento".  E expliquei-lhes que a leitura
> > durante o sono era um método totalmente inovador em que tudo se
> > apreende de forma suave e que assim não havia o trauma de o livro ser
> > grande ou de os jovens não perceberem as palavras e terem de ir ao
> > dicionário, que isso dá muito trabalho, coitadinhos!
> >
> > Tudo me corria às mil maravilhas até ao dia em que uma apendicite
> > aguda me levou à cirurgia. Oh, maldita apendicite! E voltei à escola
> > ainda com os pontos fresquinhos, a pensar que só tinha dado cinco
> > faltas. Mas enganara-me nas contas com a história da anestesia. Afinal
> > eram seis as faltas, seis!
> > E
> > já não  teria Bom na avaliação, somente um  Regular. E já não passaria
> > a professora titular.
> >
> > Foram mais seis anos de espera. Deixa, aos quarenta e seis ainda vou a
> > tempo de ser mãe. É uma gravidez de risco mas isso que tem, se há já
> > quem tenha os filhos aos cinquenta, aos sessenta e qualquer dia aos
> > cem!
> >
> > Mas aos quarenta e cinco foi a hérnia discal. Oh, maldita hérnia
> > discal!
> > Ainda pensei em ir de cadeira de rodas ou se necessário fosse, de
> > maca, mas o médico chamou-me louca e reteve-me dez longos dias no
> > hospital.
> >
> > E foi assim que somente aos cinquenta e dois cheguei a professora
> > titular.
> > Era tarde demais para ser mãe. Mas, meu Deus! Eu era professora
> > titular!
> > Fiquei tão  radiante que até me lembrei de bordar em todos os lençóis
> > de renda, em arabescos graciosos, "professora titular", "professora
> > titular"
> > e
> > em toalhas e em quadros de ponto cruz, "professora titular", "
> > professora
> > titular" e depois mandei gravar em todas as minhas canetas e no estojo
> > dos lápis, "professora titular", "professora titular" e na porta do
> > meu carr e no guarda-chuva e no guarda-sol porque, faça sol ou faça
> > chuva, eu sou professora titular!
> >
> > Agora que sou professora titular tenho, além das aulas, muitos e
> > variados cargos que me dão tanto que fazer. Mas ainda vou arranjando
> > um tempinho para ir aconselhando os novos e vou-lhes ensinando como se
> > chega a titular e como é importante ir ao médico todas as semanas e
> > levar todas as vacinas possíveis e imagináveis e como é totalmente
> > recomendável andar com  um triplo airbag no carro. E digo-lhes e
> > repito-lhes: " professor prevenido vale por dois".
> >
> >  Mas apesar de todos os meus conselhos e avisos ainda  há os que,
> > desprezando-os, se vêem de repente em maus  lençóis. Foi o caso de um
> > brilhante ex-aluno meu, brilhante universitário, brilhante estagiário,
> > brilhante professor que tendo passado com distinção o Exame de Estado
> > e tendo obtido aprovação na entrevista, não conteve os seus impulsos
> > mais genuínos e românticos durante o ano probatório, fruto da sua
> > juventude e inexperiência e não se cansou de defender  o indefensável,
> > a exigência, o rigor, a disciplina, criticando com excessivo
> > entusiasmo o facilitismo reinante e não se cansou de duvidar e de
> > contestar. E eu que lhe dizia: "
> > Meu filho, tem tento na língua, como queres tu chegar a professor
> > titular?
> > Vá aprende  comigo e diz "Ámen"! "Ámen"! Mas ele que não me ouviu.
> > E deu-se o caso, vá lá saber-se porquê, de o jovem brilhante professor
> > obter, no final do ano probatório, a infeliz classificação de
> > 6.8 quando
> > precisava apenas de 6.9 para integrar o quadro. E foi assim exonerado
> > da profissão. E teve de arranjar logo umas tabuinhas para se ir juntar
> > aos outros muitos professores,  desempregados e exonerados, lá debaixo
> > da ponte Vasco da Gama porque ele me dizia que preferia a terra firme,
> > senão tinha arranjado um botezinho como os outros fazem.
> >
> > E certa manhã ajudei-o a levar as tabuinhas e a construir a cabaninha
> > debaixo da ponte. Era um dia  brilhante, de cores perfeitas, em que o
> > sol
> >
> > resplandecia sobre o rio azul e o sapal era verde marinho e gracioso,
> > salpicado de aves pernaltas. Mas  lá estavam as centenas de cabaninhas
> > e os milhares de botes pacientemente amontoados. E ali tudo era
> > cinzento e triste. E foi nesse momento que caí em mim e vi a injustiça
> > daquilo tudo.
> > A
> > minha luta para chegar a professora titular  parecia-me agora
> > absolutamente vazia e sem sentido. Eu deveria ter  lutado sim mas
> > contra o "novo"
> > estatuto
> > da carreira docente de 2006!!
> >
> > Por isso, como era urgente recuperar o atraso de trinta anos,
> > transformei-me em gigante Adamastor e peguei nos milhares de
> > professores e respectivas famílias que viviam nos botezinhos e nas
> > cabaninhas e levei-os para o Ministério da Educação. Todo o edifício
> > estremeceu à nossa chegada porque nós trazíamos uma tempestade de mil
> > dias. Mas o "novo"
> > estatuto
> > depressa sucumbiu, de medo e de vergonha, porque muitas tinham sido as
> > injustiças que criara. Adeus "novo" estatuto! Vai e não voltes nunca
> > mais porque nós queremos mudança mas não queremos injustiça!
> >
> > Cristina Neves, professora de História (Faro)
 
 
 
sinto-me:
publicado por nuno1 às 15:15
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|
1 comentário:
De SA a 9 de Janeiro de 2007 às 15:45
Cara Professora. O novo Estatuto da Carreira Docente, visa premiar o mérito dos professores, e não apenas o tempo de serviço, como acontece até ao presente. A sra. Professora sabe como ninguém que há colegas seus que pouco ou nada fazem e chegam ao topo da carreira. Isso assim não pode acontecer, pois nas restantes carreiras da função pública, como por exemplo no ensino superior também existem diversas categorias dentro da mesma carreira profissional. Acha bem nívelar tudo pela mesma bitola?


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