Sábado, 10 de Junho de 2006

Carta aberta

Subject: FW: Fwd: En: Carta Aberta à Sr.ª Ministra da Educação - >
>Esta carta, que será divulgada também na comunicação social, tem como
>objectivo contribuir para a reflexão acerca da Qualidade da Educação do
>nosso país.
>
>Neste sentido, e ao invés de contestar ponto por ponto a sua proposta de
>alteração ao Estatuto da Carreira Docente, os docentes deste país
ficam-se
>pelas suas consequências, o tal efeito prático que a Sr.ª Ministra
prefere
>dissimular num jogo falacioso e perigoso, atirando-nos, pais e
professores,
>uns contra os outros.
>
>Embora tenha surgido como o maior engodo – o de chamar os pais à
escola - da
>história da Educação deste país, na verdade, a avaliação dos Docentes
pelos
>Pais e Encarregados de Educação, representa apenas uma ponta da ponta de
um
>iceberg, uma linha de texto num documento de 54 páginas. Interessa apenas
a
>quem se limita a promover manobras de diversão facilmente identificáveis,

>parecendo ignorar que nenhum professor sério irá temer se for avaliado de

>forma séria. É vergonhoso, até para nós que somos portugueses, verificar
o
>calculismo e a facilidade com que a Sr.ª Ministra aborda a questão
complexa,
>como é a de avaliar os desempenhos dos professores, sem o mínimo de
>profundidade, preferindo, sem olhar a meios, o populismo fácil e bacoco.

>
>Recorrendo a meras hipóteses, se o novo estatuto fosse, numa
eventualidade
>pouco inteligente, aprovado, o docente teria um número fechado de vagas
para
>Muito Bons e Excelentes. Assim, perguntamos nós: e se, num acaso, os
>professores de uma escola excederem o número premeditado de Excelentes?
>Escolher-se-iam os melhores dos melhores e passar-se-iam os outros para
>Muito Bom e os que tinham a dita nota para o Bom? Ou, numa outra
>eventualidade, rasurar-se-iam as notas, de forma a não se levantarem
>polémicas no seio de uma escola que se quer unida e sempre controlada?
>
>Talvez se vislumbre uma resposta se se conhecerem melhor os dezasseis
pontos
>em que o hipotético docente será avaliado, previsto no artigo 46º do
>hipotético novo estatuto:
>
>. o professor será avaliado pelos resultados escolares dos alunos.
>Explicar-nos-á a Sr.ª Ministra como pode um professor de uma má escola, e
em
>muitas "má" será sempre um doce eufemismo, ter o mesmo nível de qualidade
na
>sua avaliação de um colega seu numa boa escola? Será então que os
>professores têm as mesmas medidas e oportunidades de uma boa avaliação?
Ou,
>por outro lado, bastará que se avalie positivamente os alunos,
>independentemente da realidade?
>
>. o professor será avaliado pelas taxas de abandono escolar? Certamente
que
>no Ministério ainda andam à procura de uma resposta coerente a esta
>pergunta. Imaginemos que existe uma comunidade de etnia cigana numa
escola
>ou que em determinada localidade, e não são assim tão poucas, os pais
querem
>retirar os filhos da escola para que trabalhem com eles. Como pode o
>professor ser penalizado por uma situação como esta onde a
responsabilidade
>não lhe cabe? Não se deveriam criar medidas coerentes para um mundo real?

>Neste caso como seria, então? Seriam penalizados todos os docentes
daquela
>escola ou apenas daquela turma? Não será esta uma medida oportunista, em
que
>se acusam os professores da incompetência, de um governo que não cria
>segundas verdadeiras opções para os jovens que abandonam o ensino ou que
>simplesmente querem mais? Não será esta medida economicista, visto que,
>deste modo, os professores ficam limitados na sua avaliação, o que
prejudica
>seriamente a sua progressão e,
>naturalmente, os impede de subir de escalão e vir a auferir um melhor
>salário?
>
>. apreciação do trabalho colaborativo do docente? O que significa
>exactamente trabalho colaborativo? E para colaborar com o quê? Ou com
quem?
>Terá a Sr.ª Ministra intenção de instigar ao mau ambiente na sala de
>professores ou a de tornar menos transparentes algumas avaliações? Haverá

>aqui uma vontade de tornar ambíguo o que se quer simples e preciso?
Talvez,
>na sua visão, "dividir para reinar" faça um sentido que não cabe nesta
>profissão!
>
>. apreciação realizada pelos pais e encarregados de educação. Consegue a
>Sr.ª Ministra avaliar com a exacta certeza uma pessoa que nunca viu e
cuja
>imagem foi construída apenas por uma criança ou pelos comentários de
outras?
>Serão todos os pais capazes de avaliar os professores através de quase
nada?
>É essa a avaliação que pede aos professores, quando se trata de avaliar
os
>seus alunos? Avaliar com pouco? Mas sempre num nível positivo, de forma a

>não transtornar os pais? A Sr.ª Ministra quer que nós acreditemos que uma

>avaliação realizada desta forma irá ser objectiva e transparente? Muito
>embora cada um dos pontos tenha um peso, que ainda não se conhece, tal
>questão parece-nos irremediavelmente condenada ao fracasso, pelo menos se

>observada de um ponto de vista sério e rigoroso.
>
>. avaliação através da observação de aulas? Quais são os critérios
adoptados
>pela Sr.ª Ministra? Imaginemos que decorre a avaliação de dois docentes
>distintos em dois locais diversos. Cada um dos quais está a ser medido
por
>um hipotético professor titular. Imaginemos que são duas escolas em meios

>diferentes. Encontra-se a Sr.ª Ministra capaz de nos assegurar que ambas
as
>avaliações serão correctas ou que, sendo invertidos os lugares, os
docentes
>manteriam a mesma qualificação ou quase? Nestas contas entram factores
>demasiado subjectivos. Numa mesma escola, o mesmo professor pode obter
dois
>níveis diferentes, se for avaliado, por exemplo, por titulares de
distintas
>sensibilidades. Suponhamos, por outro lado, que a aula corre mal, porque
o
>professor está engripado ou porque os alunos vieram de uma visita de
estudo.
>Será sério avaliar todo um ano escolar com três visitas à sala? Será
sério
>fazer depender a progressão na carreira desta forma?
>
>Os docentes passariam a ser avaliados em dezasseis pontos ou itens de
>classificação como lhe chama a Sr.ª Ministra. Destes, quinze são
>perfeitamente subjectivos, e um deles, o que respeita à assiduidade, o
único
>preciso porque se trata de um número, a Sr.ª Ministra trata-o com a
>ligeireza que parece ser o seu maior dom.
>
>A Sr.ª Ministra não se nega a coarctar aos docentes qualquer esperança,
>ainda que infeliz, de poderem assegurar o seu desempenho se caírem
doentes
>numa cama. O professor passa, assim, a ser obrigado a cumprir 97% do seu
>serviço lectivo, se quiser progredir na carreira. À priori, esta medida
>parece ser finalmente a resposta aos pedidos dos pais e encarregados de
>educação dos nossos alunos. Será assim tão óbvia e tão simples esta
leitura?
>Três por cento de faltas como máximo, representa cinco dias de faltas por

>ano? Explique-nos, por favor, a Sr.ª Ministra como justifica o facto de
não
>poder estar doente. Fazemos notar que não falamos apenas de nós próprios,

>aqui também cabe a assistência à família. Repare a Sr.ª Ministra que os
>professores lidam com crianças, cerca de vinte e cinco por cada uma das
>cinco turma (em média, claro está), e que estas mesmas crianças adoecem e
se
>constipam e nos constipam. E nós sabemos que às vezes mais vale ficar um
dia
>em casa e recuperar a saúde
>, do que prestar um mau serviço público. Os docentes têm um grande
respeito
>pela sua profissão. Nenhum professor sério falta para ficar a dormir.
>Teremos que "contagiar" toda uma escola necessariamente, em nome da
>graduação profissional, uma vez que só serão devidamente justificadas as
>doenças em regime ambulatório.
>
>Por outro lado, repare Sr.ª Ministra, pois talvez ainda não o tenha
feito,
>que a grande maioria dos docentes está deslocada da sua casa, longe dos
seus
>familiares. Esta enorme massa humana que se desloca pelo país, em
milhares
>de quilómetros mensais, aos princípios e fins-de-semana, em veículo
próprio,
>e que entrega dinheiro ao estado nos impostos de combustíveis, está muito

>sujeita a ter contratempos na estrada ou com a mecânica do seu automóvel,
e
>que, a partir de agora, estes mesmos cidadãos manterão esta distância
>durante três e depois quatro anos!
>
>No que diz respeito às mães ou futuras mães, não compreendemos como pode
a
>Sr.ª Ministra querer avançar com um estatuto que as espartilhará –
a
>maternidade é um direito protegido pela Constituição da República
>Portuguesa. É-nos dito que, no decorrer desse ano, a docente não será
>avaliada, pelo que a mãe terá nesse ano a mesma classificação que lhe for

>atribuída no seguinte, ou seja, bastar-lhe-á faltar seis dias para que
não
>progrida na carreira dois anos. Saberá a Sr.ª Ministra o complexo que é
>cuidar de uma criança durante os primeiros meses e anos de vida? Numa
>primeira fase, a do período do parto, o novo estatuto salvaguarda as mães

>para depois as deixar desamparadas numa segunda fase, como se a
maternidade
>se esgotasse no acto de "dar à luz".
>
>Contempla alguns destes dados na sua proposta, Sr.ª Ministra, ou prefere
>tratá-los com a distância da sua demagogia? Como quer a Sr.ª Ministra
>estabilidade docente, aquela que tanto aclama, convencendo apenas quem
>ignora a realidade do que é ser educador, se qualquer uma das acções que
>toma vai no sentido de criar instabilidade e insatisfação? Como quer a
Sr.ª
>Ministra docentes produtivos e colaborativos se instiga ao fascismo
redutor,
>como se lidasse com gente disposta a rebaixar-se aos seus pés sem que lhe

>fosse levantado um par de olhos? Como quer a Sr.ª Ministra um alto nível
de
>rendimento escolar e uma enorme qualidade para a Educação quando atira
>medidas laças para cima de uma mesa, onde se discute o futuro?
>
>Este é um assunto sério, Sr.ª Ministra, nenhum professor está aqui para
>brincar! À Sr.ª Ministra interessa ter os pais do seu lado,
>independentemente dos meios, o que lhe interessa são os fins
economicistas,
>cada vez mais sublinhados por cada medida que assina.
>
>Pretende convencer os professores deste país que um tecto ao fim de doze
>anos de carreira é um objectivo para quem tem que ser avaliado e
>classificado todos os anos? As demagogias criadas para iludir a opinião
>pública são os instrumentos de trabalho utilizados pelo estado, mas do
tempo
>da outra senhora, quando a Sr.ª Ministra ainda tinha a esperança de viver

>numa democracia – se é que teve…
>
>Parece-nos que todas estas medidas foram lançadas ao ar para justificar o

>trabalho de alguns caciques que há muito não leccionam e que pululam de
>gabinete em gabinete na esperança, certamente vã, de lhe apresentar algum

>trabalho, uma vez que, somente quando já não tiver professores no seu
>ministério, vossa Senhoria ficará plenamente satisfeita.
>
>
>Junho de 2006
>
>Um grupo de Professores desrespeitados
>
>
sinto-me:
publicado por nuno1 às 10:47
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